Privacidade na era digital: uma ilusão?

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2013 foi o ano em que Edward Snowden, ex-técnico da CIA, vazou informações sigilosas de segurança dos EUA para a imprensa internacional e revelou em detalhes alguns dos programas de vigilância usados pelo país para espionar a população americana – utilizando servidores de empresas como Google, Apple e Facebook – além das informações estratégicas de vários países da Europa e da América Latina. Conversas das presidentes Dilma Rousseff  e Angela Merkel (Alemanha) com seus assessores e ministros mais importantes estão entre as correspondências espionadas.

Para além da crise diplomática, precauções políticas levaram o Brasil a comprar um satélite para aumentar a segurança das comunicações. A ONU (Organização das Nações Unidas) aprovou resolução que exige o fim de abusos de espionagem eletrônica. E as questões de privacidade, vulnerabilidade e segurança na rede, antes restritas a especialistas, tornaram-se assunto de mesa de bar entre cidadãos comuns. Foi um choque de realidade para muita gente.

“O grande público não entende quão vulnerável está na web. A internet é totalmente insegura. Enviar um e-mail é como mandar um cartão postal, as informações estão abertas. A privacidade é uma ilusão. E Snowden acabou com esta ilusão”, disse James Lewis,  do Centro Internacional de Estudos Estratégicos (CSIS, na sigla em inglês), ao caderno Link do jornal O Estado de São Paulo.

Quem acordou agora, talvez ainda esteja bastante alarmado com o uso de informações pessoais dos usuários para publicidade direcionada, geolocalizada e mensagens sob medida para nossos gostos e preferências nas redes sociais. Recentemente, a revista New Yorker publicou um infográfico de como somos vistos pelos executivos do Facebook,  Twitter, YouTube e Google Plus. Em suma, nossas características pessoais abastecendo o big data.

Desde os primórdios da internet, os cookies de navegador são usados para oferecer propagandas baseado no que o usuário buscou na internet. Um exemplo é buscar “novos carros” e começarem a aparecer propagandas de vendas de carros nas demais páginas visitadas. Cliques em vídeos de um determinado artista no YouTube lhe trarão para a página principal uma série de sugestões baseadas em sua preferência. Uma compra no Amazon.com fará com que seus autores de livros mais buscados sejam lembrados a cada nova visita.

Não é novidade, portanto, que as redes sociais e aplicativos móveis usem nossos posts, retweets, interações e curtidas como filtros para nos oferecer produtos, serviços e até sugestões de páginas que gerarão engajamento para marcas e empresas. Dados coletados pela Symantec apontam que as informações digitais valham cerca de US$1,1 trilhão às empresas por ano.

Mas para o usuário, pode inclusive ser mais cômodo encontrar produtos e serviços customizados para seus interesses. Uma pesquisa da Hi-Media e da M.Sense sobre o mercado brasileiro, aponta que 73% dos usuários de redes sociais concordam com o monitoramento de perfis por empresas de propaganda segmentada.

De acordo com pesquisa da Cisco Systems,  quase metade dos consumidores do mundo se sente à vontade com o fato de varejistas online coletarem informações pessoais quando fazem compras online, em troca de recomendações e serviços mais personalizados. O percentual no Brasil chega a 60%. Além disso, 55% dos consumidores brasileiros e 35% no mundo aceitam ou não se importam com o compartilhamento de informações pessoais em troca de serviços mais personalizados.

O problema está nos limites desta troca. Redes sociais e a maioria dos apps móveis são gratuitos para o usuário, que precisa concordar com seus termos de uso e de privacidade para ter acesso ao serviço. O mesmo vale para conexões abertas e Wi-Fi de empreendimentos como shopping centers, aeroportos, arenas esportivas, entre outros.

A rigor, não existe almoço grátis para ninguém. A publicidade sempre esteve presente — de diferentes maneiras, frequentemente consideradas “abusivas” — nas mídias tradicionais gratuitas para o público como a TV aberta, rádios e outdoors. No caso da grande mídia impressa e online, ainda que paga via sistema de assinaturas, não é segredo que a maior receita continua vindo da publicidade. Muito embora a receita do Google tenha superado a de revistas e jornais dos EUA.

Mais honesto do que simplesmente vilanizar as indústrias da comunicação, do marketing e da tecnologia, é discutir a regulação e os limites da privacidade enquanto ampliamos nossa educação e conscientização sobre o que e como compartilhamos, entendendo nossa interação digital como parte de um mecanismo mais complexo, sobre o qual também devemos nos responsabilizar.

 

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